Fruto da palmeira de Ojon, à venda num mercado local da região de Gabu, na Guiné-Bissau. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Qual é a relação existente entre cultura e desenvolvimento? Que capacidade tem a economia criativa da Guiné-Bissau de “inventar algo novo” ou de “reinventar o que já existe” tornando-se, eventualmente, um catalisador económico?

Estas foram algumas das perguntas desafiadoras que colocámos a nós mesmos quando o Laboratório de Aceleração da Guiné-Bissau embarcou numa visita de seis semanas a “Biás di Soluson” (uma viagem em busca de soluções), como lhe chamamos na língua crioula local. O objetivo da viagem foi o de estabelecer contacto com as redes de inovação existentes e de obter inspiração sobre como fazer face a desafios complexos relacionados com desenvolvimento sustentável, aprendendo com as pessoas que enfrentam esses desafios diariamente.

Ao longo das passadas seis semanas visitámos todas as regiões do país, reunimos com 45 das 48 autoridades, tanto ao nível regional como sectorial, assim como a sociedade civil e as comunidades locais. Fizemos o mapeamento de um total de 158 soluções de raiz, inovações, invenções, e desvios positivos, que serão brevemente exibidos na Plataforma Na Nô Mon, uma plataforma da comunidade iniciada pelo  UNDP da Guiné-Bissau, com o ambicioso objetivo de conferir visibilidade às redes de inovação já existentes no país. Permitam-nos dizer que, desde que estamos de volta ao nosso escritório, temos tido uma considerável quantidade de informação a digerir, resumir e analisar. Tornou-se claro, para nós, que a cultura se encontra por toda a parte. Ela afeta todos os escalões sociais e serviços públicos, e está profundamente enraizada no nosso património e sabedoria tradicional, atravessando, dessa forma, todas as tendências artísticas.

Olhando para trás, sobre as passadas seis semanas em que percorremos as regiões e setores do país, há algo que realmente sobressai nos nossos pensamentos – o ciclo de vida da Palmeira de Chabéu, e o seu potencial! Nós tivemos a oportunidade de observar, de perto, o seu ciclo de vida. Por isso, vamos contar-vos essa história!

 

Palmeiras de Ojon, na ilha de Jeta, localizada na parte ocidental da Guiné-Bissau. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Palmeira de Chabéu

O nome científico da Palmeira de Ojon é Elaeis Guineensis. Apesar de ser uma árvore nativa da África, ela foi importada como árvore decorativa para o Sudeste da Ásia há cerca de 100 anos. Atualmente, a Indonésia e a Malásia gerem mais de 85% do fornecimento global de óleo de palma, apesar de existirem outros 42 países que também constituem importantes exportadores deste produto. Na Guiné-Bissau, o óleo de palma costumava ser uma mercadoria de exportação durante os anos 70 e 80. Nos dias de hoje, é sobretudo produzido numa pequena escala de nível doméstico. De uma forma global, o óleo de palma tem sido, e continua a ser, um dos maiores fatores responsáveis pela desflorestação de algumas das florestas mais ricas do mundo em termos de biodiversidade, destruindo o habitat de espécies animais que já se encontram ameaçadas.

A palmeira é uma árvore alta e estreita, que pode ser vista em quase toda a parte da Guiné-Bissau. O famoso óleo de palma da África Ocidental é produzido a partir desta árvore. No entanto, as conversas que desenvolvemos com comunidades de diversas partes do país levaram-nos a concluir que existe uma cadeia de valor mais profundo envolvendo a sua produção.  

 

Diagrama explicativo do ciclo de vida da palmeira de Ojon, tal como observado durante a nossa expedição.

 

O prato tradicional de Chabéu

Existe uma forte ligação entre a gastronomia, a cultura e o património. Nós fomos convidados para um prato tradicional de Chabéu (um prato confecionado com óleo de palma de Ojon) quando visitámos o sector de Boé, onde se situa a cidade Madina de Boé, a qual funcionou como a capital de facto até à data em que a independência da Guiné-Bissau foi finalmente reconhecida pelo poder colonial de Portugal, em 1974. O Chabéu é um dos pratos mais populares da Guiné-Bissau. É servido com arroz branco e peixe fumado, abóbora e mandioca, uma combinação dinâmica com um sabor distinto conferido pela base de óleo de palma.

 

Mulheres a espremer o fruto cozido de Ojon manualmente, para extrair o óleo de palma. Foto: Alexia Foundation/ Ami Vitale

 

A senhora que nos convidou para esta refeição mostrou-nos como faz a colheita dos frutos na floresta das redondezas. Sorrindo, ela explicou-nos que os frutos da palmeira estão disponíveis ao longo de todo o ano, o que significa que “é sempre a estação de Chabéu”. Após efetuar a colheita dos frutos de palmeira, ela guarda uma porção para si, e vende a outra porção de que não precisa, o que lhe permite criar pequenas economias para sustentar a sua família. O óleo de palma, ou óleo Citi – como é conhecido localmente, é extraído através da cozedura do fruto em água fervente até amolecer, e de seguida espremido manualmente ou com ajuda mecânica. O conhecimento sobre a forma de extração, cozedura e processamento do fruto foi-lhe transmitido pela sua mãe, sendo uma tradição que conta com mais de um século de existência na Guiné-Bissau, partilhada por quase todas as mulheres que vivem em regiões ruralizadas do país, como uma relíquia cultural e uma preciosidade económica.

 

Fruto da palmeira de Ojon. Os frutos são removidos e fervidos em água para extrair o óleo de palma. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau
Mulheres do setor de Boe utilizando uma máquina de espremer à mão, para extrair o óleo de palma do fruto de Ojon. A máquina foi inventada por Zeca da Silva, um membro da AGPI, a Associação Guineense para a Promoção de Invenção e Inovação. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Sabão preto feito com óleo de palmiste

Foi também na região de Boe que tivemos a oportunidade de conhecer Fatumata Sedibé, que vive na aldeia de Beli. Esta aldeia fica situada na zona interior das montanhas isoladas, no nordeste do país. Nesta área, não existe cobertura de rede telefónica, pelo que as mensagens são geralmente transmitidas pelas pessoas que viajam através das acidentadas estradas não pavimentadas em direção às tabankas (aldeias) vizinhas. O transporte de mercadorias e serviços é extremamente limitado, por isso os habitantes têm de usar a sua criatividade para fazer face aos desafios do seu quotidiano. Mais uma vez, fomos convidados para uma refeição de Chabéu, desta vez sem peixe, uma vez que é difícil transportar produtos frescos devido aos problemas de transporte que os habitantes da aldeia enfrentam. Fatumata contou-nos a história de como ela volta a cozer a semente obtida após a extração do óleo Citi que ela usa para cozinhar. Isso permite a libertação do óleo palmiste, que ela utiliza para criar o seu próprio sabão preto. A cor escura que carateriza este sabão provém do óleo palmiste, mas também pode ser obtida a partir da combustão de plantas colhidas na região. Os ingredientes utilizados por Fatumata, em particular, são o óleo de palmiste misturado com os restos das cascas do milho que ela usa para cozinhar, e uma porção de soda cáustica. Ela ofereceu-nos uma demonstração das diferentes etapas do processo de produção do sabão. De uma forma geral, quando o sabão está produzido, ela vende-o aos seus vizinhos para ajudar a sustentar a sua família, ou utiliza-o para a sua higiene pessoal, assim como para lavar a loiça e a roupa.

 

O processo de produção do sabão preto. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Este tipo de sabão é produzido em vários países africanos. O “African black soap” (“Sabão preto africano”), como é vulgarmente conhecido, está a ganhar uma popularidade crescente no ocidente, uma vez que possui muitas propriedades benéficas, tais como anti-inflamatórias, exfoliantes, anti acne, tratamento de eczema, redução de pontos negros e manchas na pele, entre muitos outros.

 

Sabão preto como produto acabado, produzido por Fatumata Sedibé, pronto para a venda ou uso pessoal.

 

Vinho de palma

Na região de Canchungo, localizada na parte ocidental do país, visitámos a ilha isolada de Jeta. Para lá chegarmos, fizemos uma viagem de dez horas, partindo da capital, Bissau, por estradas impróprias para a circulação, e um percurso de canoa através dos mangais. Há apenas uma canoa por dia fazendo a viagem para a ilha, por isso tivemos de estabelecer bons contactos para obter informação sobre a Tabela das marés, já que a partida depende da maré, a qual muda rapidamente.

Quando, finalmente, chegámos a Jeta, fomos calorosamente recebidos pelo chefe da aldeia, também conhecido como o Regulo, e acabámos por ter um debate inesperado com o seu filho sobre a extensiva produção de vinho de palma na ilha, o qual é extraído diretamente da palmeira de Ojon. O vinho pode ser vendido localmente, ou transportado para o continente para ser vendido no mercado. A sua produção gera emprego para a juventude, que de outra forma teria escassas opções de emprego. Nanicio Gomes descreveu para nós a sua rotina de levantar-se às cinco horas da manhã, de caminhar para a selva, e trepar as palmeiras para as furar no topo, junto à área onde crescem os frutos. Um lindo funil, feito com folhas de palmeira, é colocado ao lado do furo para colher a seiva para dentro de uma garrafa de plástico reciclado, que é atada à árvore. Depois de completar esta tarefa, Nanicio desce da árvore e volta para casa, para dormir mais algumas horas antes de começar o dia. Após ser colhida, a seiva da palmeira inicia um processo de fermentação graças à presença de fermentos naturais no vinho. A fermentação do vinho de palma produz um vinho que é simultaneamente doce, azedo e acídico, com cerca de 4% de teor de álcool. Quanto mais longo for o processo de fermentação do vinho de palma, mais forte e azedo e/ou acídico se torna o seu sabor.

 

Pequenos funis são criados a partir de folhas de palmeira, e usados para transferir o líquido da palmeira para dentro de uma garrafa de plástico. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau
Nanicio demonstra como é feita a extração do líquido da palmeira de Ojon. Depois de extraído através de um pequeno furo feito no topo, ele é transferido para dentro de uma garrafa de plástico, onde se dá o processo de fermentação que o transformará em vinho. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Madeira de construção

Ao longo das seis semanas (cerca de um mês e meio) que durou a nossa longa Viagem em Busca de Soluções, tivemos a honra de conversar com diferentes pessoas de todas as partes do país, e conhecemos muitas histórias reconfortantes sobre como elas encaram os desafios do seu quotidiano. Com frequência, as conversas foram longas, e nós acabámos por ser convidados a entrar nas casas das pessoas para nos protegermos do sol e partilharmos uma refeição. Tendo visitado muitas construções locais, observámos um elemento recorrente: a madeira de Cibi. Cibi é o nome localmente dado à madeira da palmeira de Ojon. A sua predominante utilização deve-se ao facto de ser acessível, tanto em termos de custo como de disponibilidade, mas também às suas caraterísticas extraordinárias, tais como uma estrutura robusta, e a sua capacidade de resistência ao fogo e às térmitas. Este tipo de madeira é utilizado quer nas construções locais como na arquitetura contemporânea.

 

A estrutura de um telhado feito com “Cibi”, parte de um projeto concebido pelo gabinete de arquitetura contemporânea Coletivo Mel. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau
Um grupo de jovens a empilhar madeira “Cibi” que acabou de ser vendida a um cliente em Bissau. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Em Pecixe, a ilha vizinha de Jeta, fomos convidados por uma família a pernoitar numa casa tradicional durante a nossa busca de inovações de raiz. Mais uma vez, partilhámos uma refeição de Chabéu. Enquanto discutíamos diferentes invenções feitas na ilha, também ficámos a saber mais sobre a construção da casa onde ficámos. A casa foi construída com blocos de argila e a estrutura do seu telhado foi feita com madeira de Cibi. No chão de cimento fomos novamente encontrar o tesouro da palmeira de Ojon: o caroço que sobrou da extração do óleo de palma foi usado na mistura de cimento, uma vez que o cascalho é escasso na ilha arenosa de Pecixe.

 

O caroço que sobra da extração do óleo de palma do fruto foi usado para misturar cimento. Como o cascalho é escasso na ilha arenosa de Pecixe, e o transporte é dispendioso, o caroço é uma alternativa acessível. Foto: Laboratório de Aceleração da Guiné-Bissau
Ferreiro na cidade de Catio, usando carvão feito do caroço de Ojon, para moldar ferramentas agrícolas. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Caroço usado como carvão

O uso do caroço como carvão foi a última etapa do “ciclo da palmeira de Ojon” que observámos no curso da nossa viagem pelo país, embora a palmeira esteja, muito provavelmente, a ser utilizada de muitas mais formas inovadoras na Guiné-Bissau. Por exemplo, as raízes da palmeira de Ojon são usadas na medicina tradicional. Enquanto, sentados, admirávamos o talento de um ferreiro que criava lindas ferramentas agrícolas na cidade de Catió, ele explicou-nos o processo do seu trabalho e a forma como utiliza o caroço da palmeira de Ojon como carvão para a fogueira. Depois de o óleo de palma e o óleo de palmiste serem extraídos do fruto de Ojon, o caroço é usado para produzir carvão, que será colocado à venda no mercado. O carvão de Ojon é mais barato e dura mais tempo do que o carvão feito com madeira. O uso do carvão do caroço de Ojon pode contribuir para a redução da desflorestação na Guiné-Bissau.

 

Caroço de Ojon, do qual os óleos foram extraídos, pronto a ser utilizado como cascalho na mistura de cimento, ou como carvão. Foto: Laboratório de Aceleração Guiné-Bissau

 

Em resumo, existe toda uma economia circular a ser explorada a partir da palmeira de Chabéu, e parece existir uma clara relação entre cultura e desenvolvimento económico. À medida que o nosso Laboratório inicia um novo ciclo de aprendizagem, não temos qualquer dúvida de que a economia criativa da Guiné-Bissau pode ter a capacidade de se tornar um catalisador económico para o desenvolvimento do país.

 

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